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segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

A dimensão oculta da Santa Missa

A celebração da Santa Missa tem seus primórdios na antiga comemoração solene da Pesah judaica: era a celebração mais esperada e preparada do ano judaico, onde se imolava o cordeiro puro, primogênito e persignava-se as portas com o sangue imaculado, livrando-se assim do terrível assassínio do primogênito da família, executado pelo Anjo Exterminador.
Em tal evento, da Páscoa, todas as famílias reuniam-se em torno da mesa da partilha, donde se servia a carne do cordeiro imolado, ervas amargas, pães ázimos, bebidas nobres. Eis assim a origem da comemoração do cordeiro, cujo sacrifício marcava o centro do ano de labuta, colheita, sacrifício e dava deste modo, esperança na salvação prometida.
A celebração da Páscoa judaica, muito bem descrita em especial no livro do Êxodo, completa-se em uma dimensão sensível, imaterial, oculta, misteriosa: a dimensão da comemoração que se traziam gravadas em sua história, é a celebração que marca a vitória do povo de Deus sob os egípcios, onde sob a guia de Moisés, o povo liberta-se da condição de escravo. É assim, momento de celebrar paz, tranquilidade, e esperança para as futuras gerações. Não são apenas os símbolos e características materiais que marcam o memorial da salvação judaica, mas tem seu sentido completo no significado de fé que tal festa traz consigo.
Ao decorrer a história do povo de Deus, em tal momento destinado por Deus, Nosso Senhor, Deus Emanuel, faz-se carne humana, toma para si nossa condição e vem morar conosco, para nunca mais nos deixar. Como perfeito religioso que era nunca deixava de participar de suas funções no templo, e com seus pais, subia todos os anos à Jerusalém para a Festa pascal.
Cumprindo a prescrição da Lei, Jesus já imaginava seu caminho, traçado por se Eterno Pai, para a renovação radical desta Lei, desta Festa e da Aliança. Tal dimensão visível e sensível da Páscoa judaica já tocava a materialidade e a sensibilidade da Nova Páscoa, posteriormente inaugurada por Cristo e oferecida até hoje em todos os altares do mundo. As ervas amargas davam lugar ao sofrimento de Cristo, desde sua agonia no Getsêmani até o último suspiro no alto da cruz. Os pães Ázimos e o vinho melhor já sedia seu posto ao próprio corpo entregue à cruz e ao sangue derramado em sacrifício. Assim, o cordeiro primogênito se fazia gente, carne, homem, Deus, e se dava em sacrifício para salvar do extermínio não mais os que marcavam suas portas com sangue, mas sim, agora, os que marcavam seu espírito com o selo da graça, o batismo na aspersão do sangue salvador do Senhor na cruz.
Assim, do mesmo modo ás dimensões visíveis (do pão sem fermento e vinho) e sensíveis (da salvação ou extermínio dos primogênitos e esperança da salvação) da Ceia judaica, se faz presente na Nova Ceia, a Ceia do Senhor, as mesmas dimensões: visível, a partir da hóstia e do vinho canônico, e sensível, com a beleza, simplicidade e salvação que deva ser disposta na Santa Missa.
Sim, a Santa Missa é muito mais que uma ceia de alimento e bebida, é muito mais que uma reunião fraterna de pessoas que se querem bem, é a ceia de dons, oblações e graças. Devemos hoje, mais do que nunca, despertar ao verdadeiro sentido e espírito da Liturgia da Santa Missa. Não é mais o memorial da libertação da escravidão do povo do Egito, mas sim, ato solene de entrega do próprio Cristo para os homens e mulheres que de coração sinceros o servem com alegria e disponibilidade, e entrega nossa nos braços do Pai, oferecendo no sacrifício de Cristo os nossos sacrifícios diários.
“Se com Cristo morremos, com Ele também ressuscitaremos”. É esta certeza que movimenta nossa fé e participação ativa na Santa Missa: a certeza de que, oferecendo com Cristo nossos sacrifícios ao Pai, e morrendo com Ele, ressurgiremos vitoriosos, resplandecentes e iluminados, como também o próprio Senhor ressuscitou. Esta certeza move nossa alma em direção ao sentido sensível da Liturgia, muito mais que ao visível. É da nossa participação consciente na Liturgia e do cumprimento da nossa parte visível que depende nossa salvação eterna e os frutos e bons propósitos dispensados da parte sensível da Liturgia divina. Mas para tanto, como já dito, depende nosso esforço de tentar nos lançar para dentro do grande mistério de Cristo, manifestado na Sagrada Liturgia. Para isso requer-se zelo e estima pela Sagrada Liturgia. Não se pode manipular o ritual solene em nome da criatividade e melhor participação dos fieis. A Liturgia é uma, assim como Deus Trindade é uma, como a Igreja é uma e como devemos nos fazer um com Cristo. Sendo a Liturgia, a Eucaristia, centro da vida cristã, corrompida e manipulada com risco de perder a mística, corre-se, ao mesmo passo, o risco de corromper-se e perder toda espiritualidade verdadeira da vida eclesial. Daí, ainda, provém tamanha preocupação de Bento XVI: “hoje Jesus Cristo continua vivo e realmente presente na hóstia e no cálice consagrados. Uma menor atenção que por vezes é prestada ao culto do Santíssimo Sacramento é indício e causa de escurecimento do sentido cristão do mistério, como sucede quando na Santa Missa já não aparece como proeminente e operante Jesus, mas uma comunidade atarefada com muitas coisas em vez de estar recolhida e deixar-se atrair para o Único necessário: o seu Senhor”.
A graça está oculta. O mistério se desvela á nossa frente nos ritos e na forma de celebrar. Com os olhos de nossa fé sempre atentos e alertas ás bênçãos celestes, nosso espirito poderá ser arrebatado com Cristo até o altar da Cruz, e assim, participaremos do sacrifício unidos á Ele. Eis o grande espírito da Liturgia: fazer-nos coparticipantes da oblação ao Eterno Pai. Para isso, repito, é necessária nossa atenção, prontidão e participação ativa na vida eucarística, bem como na vida eclesial. “Sem Eucaristia, o mundo iria de mal a pior, pois a Eucaristia é Jesus. E Jesus é o único que pode salvar o mundo”. “Salvemos a Liturgia, e seremos salvos por ela”.
Santa Maria, Esperança nossa, Sede da Sabedoria. Rogai por nós.

Sem. João Eduardo Lamim

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

O monte da paz e da justiça

Nas Vésperas da quinta-feira da II semana do Saltério, o Salmo 71 reza no terceiro versículo: “Das montanhas venha a paz a todo o povo, e desça das colinas a justiça”. Falando do rei Salomão, conhecido e preferido pelo povo como um rei justo, louvável e digno de admiração, a autor sagrado prefigura o novo Salomão, o rei justíssimo que trará ao povo eleito a paz e a justiça de Iahweh.
Para tal vinda virtuosa, o salmista se utiliza de duas figuras conhecidas nas Escrituras Sagradas: a montanha e a colina. Embora não existindo altitude prescrita para a diferenciação, como montanha se considera um elevado acidente geográfico pouco maior que a colina. Como também já conhecemos, a maioria dos rios nasce nas montanhas, e assim acorrem até a planície para formarem o grande emaranhado de aguas que rodeia a terra e compõe o grande e harmonioso conjunto da criação.
Pois bem. Também é de nosso conhecimento que, a montanha, monte, colina, morro ou como quisermos chamar é uma importante figura que possui um profundo sentido bíblico-teológico. A montanha foi o lugar donde Moisés recebeu de Deus os mandamentos que norteariam a vida do povo escolhido. É da montanha que a Bíblia se refere ao citar as expressões “subir do Egito” ou “subir a Jerusalém”. Foi para a montanha que o povo de Deus se dirigia para visitar o antigo templo do Deus Altíssimo, na Cidade Santa. E foi ainda à montanha que Nosso Senhor subia tantas vezes para rezar, onde se transfigurou diante de Pedro, Tiago e João, onde proferiu o célebre Sermão da Montanha. No alto do Monte Calvário, ainda o Senhor deu a vida em resgate de muitos, entregando-se em oblação no altar do Santo Lenho. Enfim, o monte é lugar santo, terra abençoada, solo sagrado, pois é tido como lugar da divindade, da manifestação de Deus ao seu povo. “Levou-me ao alto monte e mostrou-me a Cidade Santa, Jerusalém celeste, morada do Altíssimo”, narra-nos São João no Apocalipse, mostrando-nos a epifania escatológica do Reino de Deus.
Com esta introdução, podemos entender melhor o que tenta transmitir o salmista em seus versículos inspirados e banhados pelo Espírito Santo, quando nos revela que a paz verdadeira nos virá do alto do monte, e a justiça descerá das colinas, tal como rio que nasce no cume e lava toda montanha até desaguar no grande mar. A algum tempo vi uma belíssima imagem, que relembrei ao rezar este versículo do salmo. A gravura retratava uma montanha, tendo em seu cume uma igreja majestosa. Eis que saía do lado direito do templo um rio, que descia suavemente em tal monte. Ao chegar à superfície plana, ternos cordeiros bebiam desta fonte pura e cristalina. Podemos assim comparar esta leitura á tal representação. Eis que o rio que sai do lado direito do templo é o mesmo rio de graças, bênçãos e misericórdias que saiu do lado direto aberto de Cristo crucificado e abandonado no altar cruento da cruz, e a medida que corre, suave e puramente nos elos da história da Igreja, sacia a sede daqueles que acorrem até à sua Mãe e Mestra em busca da salvação, já prometida desde os tempos de Abraão, nosso pai na fé.
Nós somos o rebanho do Pai, que Cristo, em sua imensa ternura carrega em seu colo e dá-nos a água restauradora e santificadora do seu Coração imaculado e puro. Somos os cordeiros que bebem incessantemente da fonte da Tradição, da Escritura e do Magistério católico, porque sabemos que a mesma fé da qual Cristo fundou sua Igreja está sólida e firme hoje na pessoa do Santo Padre e do Colégio dos apóstolos. Somos as ovelhas que balem constantemente: “Senhor, dá-nos sempre desta água”. Água cristalina do Coração aberto do Cordeiro de Deus, que tira e lava nossas vestes e deixa-nos puros da mancha do pecado e prontos, aptos e dignos de participar do “banquete celeste das bodas do Cordeiro”.Possamos nós ter a coragem de subir ao monte, subir á colina e encontrar ao Senhor de nossa vida. E assim, fazendo a experiência pessoal no monte de nossa existência, sermos capazes de anunciar e testemunhar a paz e a justiça que nos serão dados segundo nossa fé, e a partir daí nunca mais nos separarmos d’Ele.
Vivamos nossa vocação na sinceridade de coração.Elevemos nossos corações ate ás alturas da morada de Deus. Bebamos incessantemente da fonte da salvação, e vamos assim adorá-lo e servi-lo com espírito e coração santificados.
Santa Maria, Esperança nossa, Sede da Sabedoria. Rogai por nós.

Sem. João Eduardo Lamim
 

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