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quinta-feira, 27 de maio de 2010

A teologia do hoje


É com saudade e aquele respeito pelo sagrado que me atrevo a escrever sobre este tema para a formação. Até a fonte do texto eu mudei. Da minha costumeira “Tahoma”, passei para a “Bookman Old Style”, que peço conservarem quando reproduzirem o texto.

A “teologia do hoje”, para nós, os primeiros, é uma daquelas marcas indeléveis que ferem a alma e a moldam para sempre. Hoje, talvez consideremos o próprio termo inadequado. Seria melhor, talvez, “a mística do tempo”. É, talvez. Para quem viveu o momento desta pregação do Moysés, porém, é verdadeira teologia, até mesmo epifania de Deus através do que vivíamos nos inícios da comunidade. Mostra, além disso, traços da espiritualidade do Fundador que não poderíamos ignorar sob pena de ignorar nossas próprias raízes, que, certamente, passam por sua vida e modo de ver Deus, a humanidade e os acontecimentos.

Que traço da espiritualidade do Fundador é expresso através da pregação que vamos tentar reproduzir? Um dos mais marcantes, no seu caso: a fé. Fé inabalável com relação ao chamado de Deus, que mesmo antes da fundação da comunidade compreendia como desde sempre e para sempre.Fé prática, concreta, a ser vivida em situações concretas do dia a dia, do tempo que o senhor nos dá, do tempo que se chama hoje. Fé que é impossível de ser vivida pelos fracos ou covardes, porque exige uma tremenda violência de coração, outra característica do nosso Fundador.

O tema que ficou conhecida como “teologia do hoje”, pregado em 1985, ensinou-nos que Deus é fiel e imprimiu-se em nós como direcionamento de nossa atitude diante dos desafios. Ensinou-nos que Seu chamado é irrevogável como os Seus dons. Que Ele tem um plano perfeito para nós, ainda que não o compreendamos, ainda que não vejamos evidências de sua realização. Era, na vida do Moysés, a raiz firme da famosa “paciência histórica” que ele, antecipando-se em dois anos a Bento XVI, pediu à comunidade reunida no Capítulo de 2003 e tanto prega hoje.

Era, também, a raiz da esperança e da caridade que fazem com que, mesmo diante das dificuldades aparente intransponíveis, jamais desista de uma inspiração de Deus e que, ainda quando criticado ou incompreendido, jamais desista de uma pessoa, nem a “descarte”, mas tente até a última instância – a vontade profunda da própria pessoa – fazer com que ela permaneça fiel ao chamado irrevogável dAquele que a criou, ainda que isso “dê trabalho” e ofereça desafios à comunidade. Tudo para que, uma vez tendo sido chamada por Deus, a pessoa não “caia no deserto”, ao meio da caminhada, desistindo do chamado desde sempre e para sempre, lhe foi feito por Deus.

Se olharmos para trás em nossa história, veremos que o tema do tempo como provador da fé teve fases bastante nítidas. É como descer degrau por degrau rumo a uma nascente profunda, escondida em uma gruta. Acontece assim, aliás, com os diversos temas principais de nossa espiritualidade. Com relação à mística do tempo, teríamos um primeiro momento com: “A Teologia do Hoje”; um segundo momento, o da descoberta de que o tempo é criatura de Deus; o tempo como parte da providência de Deus e o tempo como parte da paciência histórica. Há, aí, um nítido aprofundamento ou maturação e uma crescente confiança na misericórdia e cuidado de Deus, que nos oferece provas, mas jamais nos abandona. O primeiro e o último degraus, os mais importantes, nos foram dados através do Fundador. Os degraus intermediários vieram por meio da Co-fundadora e o que aprendemos através de D. Albert de Monléon e Santo Agostinho. A síntese foi-nos dada pela poesia do Cristiano Pinheiro, ao nos ensinar que “o tempo esconde o/O que é eterno/Eterno”. Fico pasma de ver como, sem talvez jamais ter ouvido esta pregação, o Cristiano colheu do coração de Deus o segredo da “teologia do hoje”.

Em um ramo derivado deste tronco, há uma outra riqueza de nossa vocação, que também se configurou de formas diversas ao longo da nossa história. Trata-se da manifestação de Deus através dos desafios e provas oferecidas pelo tempo, nossa “epifania pessoal”, a evidência da presença de Deus em nossas vidas e a clarificação de Sua vontade através de nossa história quando dela fazemos memória bíblico-afetiva. Trata-se da “História da Salvação Pessoal”, metodologia que o Moysés desenvolveu desde os tempos do Colégio Cearense para que nos aprofundemos em nossa convicção do chamado e escolha de Deus que se torna evidente quando olhamos a nossa história pessoal a qual, no caso de cada um de nós, confunde-se com a história da manifestação do Carisma Shalom. Também esta inspiração relacionada ao tempo – já descoberta por Santo Agostinho em suas Confissões – evoluiu à medida em que fomos amadurecendo e compreendendo que, de fato, “o tempo esconde o que é eterno” e que ele foi criado para que o Verbo de Deus se fizesse carne no tempo e, através dele, em nós. Também nesta evolução, temos as bases lançadas pelo Fundador e desenvolvidas por vários de nós, inclusive a Co-fundadora.

Mas, vamos ao que era pregado nos primeiros tempos sobre a “Teologia do Hoje”. Primeiramente, conheçamos o contexto: Éramos sete Moysés, Timbó, Madalena, Jaqueline, Luiza e eu. Os ventos da incompreensão e mesmo da perseguição balançavam a pequena comunidade e a ameaçavam com duas terríveis armas do demônio: a dúvida, ou incerteza, e o desânimo, ou desencorajamento. Nesse ambiente contaminado pela tentação, havia clima para perguntas freqüentemente destruidoras de vocações: “O que será de mim?” e “Será que eu fiz certo ao deixar tudo e vir para cá?” Eis a orientação que recebemos do Fundador:

Tomemos Hebreus 3,7-19, segundo a Bíblia da Editora Ave-Maria, a única de que dispúnhamos - e a duras penas! - na época:



“Por isso, como diz o Espírito Santo: Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais os vossos corações, como por ocasião da Revolta, como no dia da tentação no deserto, quando vossos pais me puseram à prova e viram o meu poder por quarenta anos. Eu me indignei contra aquela geração, porque andavam sempre extraviados em seu coração e não compreendiam absolutamente nada dos meus desígnios. Por isso, em minha ira, jurei que não haveriam de entrar no lugar de descanso que lhes prometera.(Sal 94, 8-11) Tomai precaução, meus irmãos, para que ninguém de vós venha a perder interiormente a fé, a ponto de abandonar o Deus vivo. Antes,animai-vos mutuamente cada dia durante todo o tempo compreendido na palavra hoje, para não acontecer que alguém se torne empedernido com a sedução do pecado. Porque somos incorporados a Cristo, mas sob a condição de conservarmos firme até o fim nossa fé dos primeiros dias, enquanto se nos diz: Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais os vossos corações, como aconteceu no tempo da Revolta.

E quais foram os que se revoltaram contra o Senhor depois de terem ouvido a sua voz? Não foram todos os que saíram do Egito, conduzidos por Moisés? Contra quem esteve indignado o Senhor durante quarenta anos? Não foi contra os revoltosos, cujos corpos caíram no deserto?E a quem jurou que não entrariam no seu descanso senão a estes rebeldes? Portanto, estamos vendo: foi por causa da sua descrença que não puderam entrar.”



Nós fomos chamados por Deus, ouvimos a Sua voz. Qual tem sido a nossa resposta Àquele que nos chamou, que nos escolheu, que nos elegeu para esta magnífica vocação? Como os hebreus que cruzavam o deserto com Moisés, poderemos, frente às primeiras provas, nos revoltarmos, isto é, resistir à vontade de Deus, endurecer nossos corações e negar Seu chamado e eleição de cada um de nós.

Os hebreus foram provados no deserto e tiveram medo, olharam para o passado, preocuparam-se com o próprio futuro e, abalados em sua fé, desiludidos e desanimados, deixaram de olhar para o Senhor e passaram a olhar para si mesmos. Conseqüência: revoltaram-se contra o Senhor [mesmo] após terem ouvido a Sua voz. O resultado? O Senhor indignou-se contra eles e fez cair seus corpos no deserto. E qual a razão para a indignação do Senhor? A pouca fé do povo, a falta de confiança em suas promessas, o esquecimento do que havia dito a Sua voz: foi por causa de sua descrença que não puderam entrar.

Em nossa caminhada, corremos o risco de, diante dos desafios, mesmo tendo escutado de forma clara a vontade de Deus, começarmos a desconfiar dEle, de Suas promessas, de Sua voz que ouvimos e que nos moveu. Corremos o risco de olhar para nós mesmos – andavam sempre extraviados (isto é, fora de minhas vidas) em seus corações - e retirar os nossos olhos de Deus. Corremos o risco de voltarmos aos nossos planos e de termos saudades do que vivíamos antes de entrar na comunidade. As dificuldades naturais no interior da comunidade e os desafios no seu exterior podem nos atingir, nos abalar. Se não as enxergarmos como uma prova de Deus para nos fazer crescer na fé, um teste de Deus para ver se realmente confiamos nEle, podemos cair mortos no deserto, desanimados e destruídos pela falta de fé, confiança e amor a Deus – não compreendiam absolutamente nada dos meus desígnios.

Por isso, Hebreus nos diz: tomai precaução, meus irmãos, para que ninguém de vós venha a perder interiormente a fé, a ponto de abandonar o Deus vivo. Podemos estar na comunidade, fazer tudo o que temos de fazer, e no entanto, perder interiormente a fé que nos mantém firmes. É a fé que nos mantém de pé, lutando, acreditando, investindo nossas vidas no chamado que o Senhor nos fez, apesar das ameaças interiores e exteriores.

O conselho que a Palavra nos dá é claro: animai-vos mutuamente cada dia durante todo o tempo compreendido na palavra hoje para não acontecer que alguém se torne empedernido com a sedução do pecado.

É o hoje que devemos viver. É a isso que somos chamados: a viver o hoje de Deus, para quem tudo é presente. Não podemos deixar que nossas preocupações ou nossos egoísmos nos joguem nas preocupações com o futuro nem nas lembranças do passado. Deus nos chama a viver o Seu hoje, o hoje eterno que nos ultrapassa, mas no qual cremos. É hoje que devemos renovar nossa confiança em Deus. Não amanhã, não conforme o que venha a acontecer, não se Deus fizer isso ou aquilo, não se Deus der este ou aquele sinal, mas incondicionalmente. Incondicionalmente, devemos crer e viver o hoje eterno de Deus, isto é, todo o tempo compreendido na palavra hoje.

O viver o hoje, o agora, é sinal de grande confiança em Deus. É também sinal de humildade, sinal de que não direcionamos a nossa própria vida, mas que a colocamos em Suas mãos para que Ele a direcione. Sinal de que Ele é o Senhor, Ele é o Salvador e nós somos seus servos, que confiamos nEle humilde e incondicionalmente.

O que nos vai acontecer amanhã? Não nos interessa! Não é da nossa conta. É da conta de Deus. Ele é Deus, não nós! É Ele o Senhor desta vocação, desta Obra, desta comunidade, de nossas vidas. O Senhor nos dá o hoje, o agora para vivermos a inteira confiança nEle. Esta é a sua prova, este é o seu teste de amor para conosco. Se o amamos, se cremos que Ele nos chamou e escolheu, se respondemos “sim” ao Seu chamado, continuemos a confiar, hoje, nAquele que é fiel e coerente e vivamos o hoje, não o ontem, não o amanhã. É hoje que sou chamado a ser fiel. É hoje que acolho a Sua vontade. É vivendo o hoje que entro em Sua dimensão do eterno agora, com confiança irrestrita em Seu Amor e Sua fidelidade.

Viver bem o hoje, ser feliz hoje significa ser fiel ao Senhor hoje, sem medo das ameaças, das dificuldades, de monstros que, na verdade, existem mais dentro de nós do que fora de nós. Ser feliz significa ser fiel hoje. Significa, também, a força da vida comunitária: Animai-vos mutuamente cada dia durante todo o tempo compreendido na palavra hoje para não acontecer que alguém se torne empedernido com a sedução do pecado.

Precisamos nos animar uns aos outros. Sustentar uns aos outros. Trazer o outro para o hoje de Deus, para a confiança absoluta no Senhor, que nos chamou a viver esta dimensão de fé em Seus desígnios eternos. Sim, o Senhor tem para nós desígnios de eternidade. Cabe a cada um de nós animar-se interiormente na fé e animar os outros para a mesma fé, a mesma confiança, a mesma entrega corajosa e incondicional Àquele que nos chamou.

Cabe a nós não nos prendermos ao passado nem nos preocuparmos conosco mesmos, com o que haveremos de comer, com o que haveremos de vestir, com o que será de nós. Cabe-nos viver o hoje, sabendo que, em Deus, este hoje é eterno, sabendo que vivemos uma dimensão de eternidade, sabendo que estamos constantemente sendo provados em nossa fé e confiança em Deus e que Ele é eternamente fiel às Suas promessas e ao chamado eterno – não passageiro, mas para sempre – que Ele nos fez.

Eis aquilo do que consigo me lembrar, além da pequena sala um pouco escura, das bermudas dos meninos, do jeito de vestir das meninas, da carreira que se tinha que dar de vez em quando até a cozinha para a comida não queimar. Certamente os outros poderão acrescentar muitas coisas, ou até dizer “mas disso eu não me lembro”. Cada um guarda em sua memória este e outros momentos preciosos da nossa história com seus matizes pessoais. Nem sei se alguém ainda tem as anotações que fez naquele tempo, há 20 anos atrás. Somos muito descuidados com nossa própria história. Não dos damos conta do quanto ela é preciosa para nós e para as gerações que virão.

Tentei, ao máximo, separar conceitos que tínhamos naquele tempo -em que quase nunca dizíamos “Deus”, mas preferíamos usar “Senhor” – de conceitos mais modernos. Não sei se consegui. Sei que posso ver muito bem, nesta pregação dos primeiros tempos da comunidade e no impacto que ela teve sobre nós em um momento de necessidade e de unção muito especial, a bendita raiz da fé inabalável e da violência de coração que caracterizam a espiritualidade do nosso fundador e que deveriam nortear as nossas vidas em todo o tempo compreendido na palavra HOJE.

Maria Emir Nogueira
Comundade Shalom

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