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sábado, 27 de março de 2010

JOÃO PAULO II, BENTO XVI E O SACERDOTE ( parte III).


Ratzinger e sua resposta a crise sacerdotal.

Agora chegou a vez de o próprio Ratzinger responder a questão, levando em consideração que sua resposta tem relevância, devido sua atual posição como Pastor da Igreja Católica. Porém a resposta de Ratzinger segue sua pergunta sobre a tensão do concílio de Trento e Vaticano II, o qual já foi exposto na primeira parte destas reflexões, mas reproduzo abaixo:

“Disto vem encontro uma distinção sobre a acentuação da função sacerdotal. De um lado temos à centralidade da Eucaristia para o sacerdócio (sacerdos-sacrificium), até então clássica no catolicismo, o primado da palavra, que até o momento fora tipicamente protestante. O Vaticano II diante destes questionamentos da Reforma (e também com o concílio de Trento), da modernidade se pergunta, até que ponto esta imagem típica do sacerdócio clássico pode progredir sem perder o essencial”?

Ratzinger, assim como João Paulo II, também elabora um fundamento Cristológico, do qual tenta unir a tensão já enunciada acima.

“Para chegar a uma resposta devemos nos perguntar primeiro: o que significa realmente “evangelizar”? Em que consiste? O que é este Evangelho? Mais uma vez: para fundamentar o primado do anúncio do Evangelho, o Concílio poderia muito bem ter-se remetido aos evangelhos. Vêm à minha mente algo que está na raiz do breve e significativo episódio que se encontra no início do evangelho de Marcos, quando o Senhor, que é procurado por todos por causa de seu poder milagroso, se retira para um lugar solitário e, ali, reza, (Mc 1,35ss). Diante da insistência de “Pedro e de seus companheiros”, o Senhor responde: “Vamo-nos para outro lugar, para as aldeias da redondeza, pois devo pregar também ali; foi para isto que eu vim” (1,38). Como finalidade específica de sua vinda Jesus indica o anúncio do Reino de Deus”.

O cardeal prossegue sua reflexão frisando que a finalidade específica de Jesus é o anúncio de seu reino. Este anúncio deve por um lado está unido ao recolhimento da oração.

“Precisamente tal recolhimento parece ser sua condição de possibilidade; e, está unido com a “expulsão dos demônios” (1,39), ou seja: não se trata apenas de palavras, mas ao mesmo tempo de atuação eficaz. Não tem lugar dentro de um belo mundo santificado, mas em mundo dominado por demônios, e significa uma intervenção libertadora neste mundo”.

A partir daqui Ratzinger avança na suas reflexões, mostrando que o anúncio do Reino acontece em meio a parábolas e sinais. Sua Palavra não é mero assunto intelectual, para debates, mas produz realidade. É, neste sentido, palavra “encarnada”; a correspondência de palavra e sinal mostra a estrutura “sacramental”.

Avançando ainda mais em sua reflexão, o teólogo mostra que diferentemente de um mero Rabi, o conteúdo deste Reino não é independente. Ou seja, Cristo seu uni a este conteúdo, pois Ele mesmo é o reino.

Assim se entrelaçam palavra e realidade de uma forma nova: a parábola provoca a ira dos inimigos que, justamente, fazem tudo o que se narra. Eles matam o Filho. Isto significa: as parábolas estariam vazias sem a pessoa viva do Filho que se “translada” (Mc 1,38), que “foi enviado” pelo Pai (12,6). Estariam vazias sem a verificação da palavra da cruz e a Ressurreição. Desta forma, entendemos agora que a pregação de Jesus deve ser considerada desde um sentido “sacramental” ainda mais profundo do que pudemos ver até agora: sua palavra traz consigo a realidade da Encarnação e o tema da cruz e da ressurreição. É palavra-ato neste sentido totalmente profundo. Assim o compreende a Igreja na correspondência entre pregação e eucaristia, porém também entre pregação e testemunho vivo e sofredor.

Trazendo isto para o sacerdote, se conclui que sua missão não está em revelar a si próprio, mas a Cristo, sua voz só terá sentido quando estiver na Voz de Jesus, no Verbo encarnado. Para o pregador cristão isto significa que ele não fala de si, mas se converte em voz de Cristo para assim criar espaço para o próprio Logos e, através da comunhão com o homem Jesus, conduzir para a comunhão com o Deus vivo. O anúncio da Palavra no sacerdócio, exige uma auto- expropriação, até chegar nas palavras de S. Paulo: “Já não sou eu quem vivo, é Cristo quem vive em mim” (Gal 2,20).

Concluindo, em Ratzinger e João Paulo II, encontramos respostas bem elaboradas sobre a ontologia sacerdotal. Percebe-se que estes dois grandes teólogos, não prescindiram de uma condição, ao contribuir neste assunto tão profundo. Esta condição é a unidade profunda do homem que é “separado dentre os homens”, com Cristo. É a configuração com Cristo, que faz o sacerdote. E quando o homem pretende distinguir, a aplicar um dualismo entre Cristo e o meu eu, surgem não só problemas teológicos como também práticos.
Os problemas gerados recentemente por alguns padres em todo o mundo são provas de uma vivência cotidiana, que não procura unir ao caráter ontológico, mas uma separação, onde anunciar o reino é uma função, com hora marcada e lugar delimitado. Bento XVI sabe muito bem, e suas últimas declarações caminham nesta direção, que o problema do sacerdote hoje, não é o celibato ou a necessidade de se secularizar. É um problema não só do clero, mas de todos os cristãos. Este problema é a ausência de Cristo. A mesma situação que acontece com a sociedade, quando reserva apenas “horas”, e submete Cristo a uma condição espaço temporal, onde ali Ele “entra em cena”, pode acontecer com aqueles que foram chamados a se configurar radicalmente suas vidas, quando dualizam o que nunca pode ser dualizado ou quando separam o que é para “si” do tempo que é para Cristo.
S. João Maria Vianney, rogai por nós!

Fonte: RATZINGER, Joseph. Convocados em el camino de la Fé. Trad: Padre Paulo Ricardo. Madrid, Ediciones Cristandad, 2005, p.159-180

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